Finance

APIs serão vantagem competitiva das empresas financeiras

Recentemente, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que o sistema de open banking é “inevitável”. O Brasil caminha para criar a regulamentação que redefinirá todo o setor financeiro, ao exigir que bancos compartilhem dados de seus clientes com terceiros, caso o titular da conta autorize. Com a quebra de monopólio dessas informações, uma série de experiências, aplicativos e serviços novos poderão chegar aos usuários. Tecnologicamente, o que está por trás do open banking é o uso de APIs - funcionalidades que realizam uma tarefa específica dentro de um aplicativo, programa ou software. A nova regulação chega para criar padrões básicos nessa troca de informações dos milhões de clientes que hoje confiam seus dados a um banco.

As APIs podem ser utilizadas pelas instituições financeiras para vários objetivos. Melhorar a integração de sistemas internos e, assim, refinar a entrega aos usuários; trocar informações com outras empresas e oferecer produtos e serviços diferenciados e personalizados; levar seus serviços financeiros para dentro de outras empresas, como varejistas. No Brasil, por exemplo, alguns bancos utilizam APIs de operadoras de telefonia para enviar comunicação via SMS a clientes ou APIs de redes sociais, como LinkedIn e Facebook, para obter informações extras sobre o cliente que os permitam fazer uma análise de perfil mais detalhada.

 Em 2016, o Banco Original foi pioneiro em utilizar APIs para mostrar o saldo da conta corrente no Facebook e no Instagram. No ano seguinte, o Banco do Brasil utilizou uma API para que micro e pequenas empresas integrassem suas informações bancárias (saldo e fatura) à plataforma de gestão de negócios ContaAzul. Esses clientes ganharam uma experiência melhor porque não precisavam mais importar os arquivos da conta bancária ou redigitar essas informações no software do ContaAzul – as informações circulavam sem atrito entre uma empresa e outra.

Corretoras também estão aproveitando as vantagens das APIs. Os robôs de investimentos, que avaliam a posição de um investidor e dão a ordem de compra e venda automaticamente, comunicam-se com a corretora e os usuários por meio dessa ferramenta. As fintechs, claro, também surfam essa onda para oferecer crédito ou um maior entendimento ao usuário sobre suas finanças, como faz o GuiaBolso. O aplicativo sincroniza as contas bancárias do usuário e faz uma detalhada análise de todos os seus gastos, sem que a pessoa precise ficar anotando suas despesas uma por uma.

O uso das APIs na Europa, onde o open banking já é regulado, mostra que há um mundo de possibilidades a ser explorado. Por lá, os bancos precisaram empreender uma grande mudança cultural e estratégica ao se verem obrigados a compartilhar dados com terceiros, entre concorrentes e com fintechs. Para se manterem competitivos, não podem mais ficar fechados em si mesmos. O banco HSBC, por exemplo, desenvolveu uma plataforma para que usuários, correntistas ou não, possam visualizar seu saldo e extrato de várias instituições financeiras. Com isso, o banco cria um ponto de contato com pessoas que talvez nem sejam seus clientes e pode, a partir dele, oferecer seus produtos e serviços. Já o grupo espanhol BBVA oferece duas APIs de empréstimo - permitindo a terceiros obter informações sobre a capacidade de um cliente de honrar sua dívida. Várias fintechs europeias utilizam a base de dados dos bancos para criar novos tipos produtos e algumas já viraram bancos completos, como a alemã N26, que surgiu com o propósito de repensar a experiência bancária para as necessidades do mundo mobile.

Se as instituições bancárias não se abrirem e “conversarem” - por meio de APIs - com outras empresas, fintechs e parceiros, dificilmente serão capazes de fornecer a experiência personalizada que o usuário busca atualmente. A preparação para o futuro requer mudar a mentalidade de que tudo deve ser feito dentro de casa e preparar a base tecnológica para essa interação. Com a democratização dos serviços financeiros, as pessoas têm acesso a diversas opções e plataformas para migrarem - que podem, inclusive, ter até nascido fora deste setor. Na China, o WeChat tornou-se o maior banco do país, sem ter sido criado com esta finalidade. Ao desenvolver um sistema próprio de pagamento e integrar diversos serviços, o aplicativo criou um ecossistema utilizado atualmente por 1 bilhão de pessoas, que deixam muito dinheiro dentro dele. Na China, aliás, o uso do dinheiro físico é raro.

Uma empresa inovadora atualmente não é a que tem a melhor tecnologia, mas a que está preparada para receber qualquer tecnologia. As instituições financeiras no Brasil pensam estar prontas para esse cenário, mas precisam ainda quebrar uma série de paradigmas. Entre eles, a ideia de que abrir-se para outros segmentos é renunciar à segurança de dados dos usuários. Não é – e há ferramentas que, aliadas à regulação, garantirão o sigilo necessário. É melhor dar esse passo antes que a regulação chegue. Porque quando a obrigação é o que motiva a inovação, já está tarde demais. Quem se adiantar terá o benefício de conseguir clientes e já ir testando, arriscando e aprendendo como trabalhar uma experiência melhor.

Os bancos sempre foram ricos em informações, mas deixaram de aproveitar esses dados por décadas. Com APIs, podem ligar essas informações de comportamento, gasto e consumo dos clientes a outras empresas e oferecer experiências inéditas. Podem, por exemplo, prever uma viagem de um cliente a partir de seu histórico de consumo e oferecer não somente o serviço financeiro internacional, como seguro viagem, locação de carro, câmbio, mapas, roteiros, guia de restaurantes e o que mais for interessante. Se fizerem isso bem, de uma forma segura, rápida e acessível, os usuários os escolherão como canal único.

No futuro próximo, ninguém mais terá 20 aplicativos de serviços. A tendência é ter, no máximo, dez que ofereçam dezenas de funcionalidades. Hoje, os usuários gastam muito mais horas em redes sociais do que no aplicativo do banco. Na transformação digital do setor financeiro, as instituições precisam ser capazes de trazer mais conteúdo, informação e serviço que faça o usuário gastar mais tempo com elas. Se não, quem vai virar um grande banco é o Facebook. Ou qualquer outra empresa que saiba trabalhar com dados e experiência de usuário, deixando-o à vontade para checar o saldo, pegar empréstimo ou fazer um investimento sem burocracia.

A nossa empresa, a GR1D, surgiu para ajudar as empresas a escolherem e utilizarem as melhores APIs para seus negócios. No âmbito financeiro, nossa plataforma já oferece uma API para pequenas e médias empresas realizarem análise de crédito e conseguirem a antecipação de recebíveis, uma API de serviço de compra de moedas estrangeiras de forma online e uma API que permite a empresas concederem crédito como se fossem um banco. Em breve, colocaremos no ar APIs que possibilitam a qualquer empresa construir um banco digital.